La guerra psicológica del imperio de la hegemonía unipolar en África (en portugués)

A GUERRA PSICOLÓGICA DO IMPÉRIO DA HEGEMONIA UNIPOLAR EM ÁFRICA

Martinho Júnior*, Luanda, 10 de Junho de 2018

1- Três acontecimentos se podem considerar de marcos vinculativos para a formulação dos parâmetros e conceitos da guerra psicológica que o império da hegemonia unipolar move em África:

– O derrube das torres gémeas de Nova-York, a 11 de Setembro de 2001 (que criou condições para o argumento de qualquer tipo de ingerência, intervenção e/ou manipulação no universo, em particular no Médio Oriente e em África, sob o pretexto de combate contra o terrorismo);

– A criação do AFRICOM em 2007, colocando-o operacional em 2008 (que criou condições adequadas à situação de África, adoptando os novos termos de guerra psicológica para o continente, o que inclui exercícios de “soft power”, civis e exercícios militares em esforços contínuos e com correntes bem definidas);

– O assassinato de Kadafi, na Líbia, a 20 de Outubro de 2011 (que permitiu a eclosão dos processos contraditórios em curso em África, nutridos pelas conveniências de ingerência, intervenção e manipulação).

O colapso do socialismo na década de 90 do século XX tornou-se um esteio que propiciou o fim duma guerra psicológica, a Guerra Fria, cujos conteúdos foram sempre tão propagandeados pela “civilização ocidental” com os Estados Unidos à cabeça e seu cortejo de vassalos que incluíam a NATO, pelo que para o império da hegemonia unipolar, ficou disponível um espaço vazio global que era uma oportunidade para a “globalização” de feição, feita à sua imagem e conveniência que, com base em novas tecnologias, era já um processo dominante à mercê inclusive do seu “soft power” eminentemente anglo-saxónico.

Nesse processo dominante com factores antropológicos nunca antes experimentados a essa escala, urgia nutrir os conteúdos desse domínio em função da visão dum “polícia do mundo”, que para a aristocracia financeira mundial deveria ser erguido persuasivamente e tanto quanto o possível “acima de qualquer suspeita”, numa antropologia de âmbito global, hegemónica e unipolar!

Estabelecidos os critérios na generalidade, então, com a instrumentalização dos Estados Unidos e de seus vassalos, passou-se a tratar dos casos especiais tendo desde logo como justificação o derrube das torres gémeas em Nova-York, a 11 de Setembro de 2001: novo século, nova guerra psicológica!

O que é inerente às novas tecnologias permitiram assim, nos termos da nova guerra psicológica, onde os contraditórios passaram a ser fluxos de ampla mas versátil manipulação, o que Ignatio Ramonet definiu com tanta propriedade em “O império da vigilância”(http://razonesdecuba.cubadebate.cu/articulos/el-imperio-de-la-vigilancia-de-ignacio-ramonet/):

Con el pretexto de luchar contra el terrorismo y otras plagas, los gobiernos, incluso los más democráticos, se erigen en Big Brother, y no dudan en quebrantar sus propias leyes para poder espiarnos mejor.

En secreto, los nuevos Estados orwelianos intentan, muchas veces con la ayuda de los gigantes de la Red, elaborar exhaustivos ficheros de nuestros datos personales y de nuestros contactos, extraídos de los diferentes soportes electrónicos”

As implicações na gestação do caos, do terrorismo e da desagregação, que chegam a alimentar correntes filosóficas a cavalo nos conceitos dos “Chicago Boys”, foram a base que propiciou a implantação dos sistemas globais de vigilância e ambos têm sido intimamente associados ao âmbito e conteúdo da guerra psicológica também em curso em moldes adaptados a África: cada um desses conteúdos (neoliberalismo, sistemas globais de vigilância e guerra psicológica) interpenetram-se uns nos outros e nenhum deles foi concebido para se tornar num factor isolado de intervenção!

O Exercício Southern Mistral 2011, antecipou a coordenação do ataque franco-britânico à Líbia (integrando os dispositivos dos Estados Unidos), com vista ao fim do governo de Kadafi (https://www.globalresearch.ca/when-war-games-go-live-staging-a-humanitarian-war-against-southland/24351)

2- Como África é uma ultraperiferia económica e se tem reduzido por via da opressão resultante do domínio ao papel “básico” de fornecedor de matérias-primas e de mão-de-obra barata, o “império da vigilância” não consegue atingir por si grande parte de sua população e comunidades, particularmente nas imensas áreas rurais, onde parte delas, ainda que se localizem nos espaços vitais idealmente disponíveis, sobrevivem em regimes de autossubsistência e estão ainda fora das possibilidades de acesso às novas tecnologias…

Para muitas dessas comunidades os horizontes são as montanhas circundantes, cursos de água de contingência, ou mesmo a impenetrabilidade de algumas florestas.

Por isso, existe um campo não coberto, que para o império da hegemonia unipolar era preciso preencher com a implantação directa duma rede de manipulações de contraditórios que a partir dos ensaios da “Iª Guerra Mundial Africana”(um choque de natureza neoliberal que ocorreu durante toda a década de 90 do século passado), tornaram possível primeiro a instalação do AFRICOM em 2008 e depois o golpe na Líbia em 2011, como pedras de toque para, ao expandir-se o caos, o terrorismo e a desagregação, melhor argumentar (justificando) a favor do esforço de amplitude continental de vigilância, com a integração dos meios interventivos de potências como os Estados Unidos, a França e outros vassalos da NATO (Portugal incluído ainda que ao serviço da ONU como ocorre na República Centro Africana), principalmente, a fim de os combater!

Se houver algum investigador que siga a pista do dinheiro que financia o caos, o terrorismo e a desagregação, decerto que vai desembocar nos nós fulcrais que mexem os cordelinhos “behind the scenes”, intrincando-se nas aproximações históricas entre anglo-saxões, sionistas e as agenciadas casas monárquicas da península arábica!

Enquanto nos países mais desenvolvidos os sistemas de vigilância “asfixiam” (conforme a exposição de Ignatio Ramonet), nos países da ultraperiferia económica, uma parte dos sistemas de vigilância tornaram-se interventivos e, no caso africano, com a justificação do combate ao terrorismo, o eixo dessa intervenção passou a ser desempenhado pelo AFRICOM e por vassalos da NATO como a Grã-Bretanha e a França, esta última explorando os nexos e os vínculos decorrentes do “pré carré”, estabelecendo assim os procedimentos da nova guerra psicológica que surgiu em função das enormes potencialidades das novas tecnologias.

Na razão inversa do acesso das comunidades africanas às novas tecnologias, está a crescer o campo de intervenção militar inserida nos parâmetros da nova guerra psicológica em curso em África!

As alianças que o esforço de vigilância propicia em África, após a expansão do AQMI, do surgimento do BOKO HARAM e da implantação das milícias de radicais islâmicos na República Centro Africana, ou na Somália, agora no norte de Moçambique, ampliam a vassalagem dos frágeis países africanos que são alvo desses expedientes instrumentalizados e artificiosos, impondo as regras do jogo que favorecem os interesses do domínio do império da hegemonia unipolar e de seus vassalos de fora (incluindo antigas potências coloniais) e de dentro do continente.

US builds drone base in Niger, crossroads of extremism fight – https://www.yahoo.com/news/us-builds-drone-niger-crossroads-extremism-fight-090624861.html

Graças ao “pré carré”, a “FrançAfrique” possui elementos sólidos que se arrastam desde trás em particular na África do Oeste e no Sahel, tornando ainda mais persuasivos os expedientes neocoloniais.

Neste caso as condições que foram criadas para a fermentação que está na raiz do caos, do terrorismo e da desagregação, estão intimamente associadas às condições que promovem a implantação dos sistemas de vigilância, tanto os civis como os militares!

Outro indicador em resultado dessa fermentação, são as migrações africanas para dentro da Europa, incluindo este episódio corrente do navio Aquarius, num momento em que as migrações em resultado do caos, do terrorismo e da desagregação influem até no carácter dos estados europeus, em função dos seus próprios sistemas democráticos representativos, abrindo caminho a ideologias xenófobas, racistas e de “extrema-direita” que começam a ameaçar a formulação da própria União Europeia!

Esse processo telúrico que é um “efeito boomerang”, está subjacente à vassalagem em relação aos Estados Unidos, contribuindo sob fundo psicológico para a pôr em causa e procurar o “corte das amarras”, ainda que à custa do reforço da vigilância.

Em África simultaneamente o AFRICOM (constate-se aqui: http://www.africom.mil/) possui componentes militares e civis cujos conceitos se interpenetram nas aplicações em curso, facilitando a coordenação dos processos próprios de manipulação, ingerência e intervenção, a coberto das necessidades de vigilância artificiosamente criadas pelo império da hegemonia unipolar, o que se traduz nos termos da guerra psicológica do império em África, inclusive nas suas linhas “transversais” dirigidas às sociedades-alvo e explorando os pontos críticos que se aprouverem (foi assim com as “primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto, mas também na Líbia, na base da escalada da agressão e trágico fim dum Kadafi assassinado, é assim com as migrações africanas).

America’s Secret Drone Bases in Africa and the Middle East – https://www.globalresearch.ca/americas-secret-drone-bases-in-africa-and-the-middle-east/5456771?print=1

Essa manobra do poder dominante nutre-se de muitos factores, mas no essencial ao domínio, dum conjunto de sistemas de vigilância que Ignatio Ramonet define como “Uma aliança sem precedentes”, que é um esteio para o “soft power” anglo-saxónico (mas á uma agressão que por vezes é dolorosamente sentida em muitas comunidades tradicionais africanas):

… “En cierto modo, la vigilancia se ha privatizado y democratizado. Ya no es un asunto reservado únicamente a los servicios gubernamentales de información. Aunque, gracias también a las estrechas complicidades que los Estados han entablado con las grandes empresas privadas que dominan las industrias de la informática y de las telecomunicaciones, su capacidad en materia de espionaje de masas ha crecido de forma exponencial. En la entrevista con Julian Assange que publicamos en la segunda parte de este libro, el fundador de WikiLeaks afirma:

Las nuevas empresas, como Google, Apple, Microsoft, Amazon y más recientemente Facebook han establecido estrechos lazos con el aparato del Estado en Washington, especialmente con los responsables de la política exterior. Esta relación se ha convertido en una evidencia […]. Comparten las mismas ideas políticas y tienen idéntica visión del mundo. En última instancia, los estrechos vínculos y la visión común del mundo de Google y la Administración estadounidense están al servicio de los objetivos de la política exterior de los Estados Unidos.

Esta alianza sin precedentes – Estado + aparato militar de seguridad + industrias gigantes de la Web – ha creado este Imperio de la vigilancia cuyo objetivo claro y concreto es poner Internet bajo escucha, todo Internet y a todos los internautas”

Em África também muitos sistemas de vigilância estão em mãos privadas, incluindo os de âmbito mercenário, em especial quando se procura proteger as iniciativas mineiras em grande parte resultante de investimentos externos, acompanhados de agenciamentos locais.

Um exemplo disso é o que está a acontecer no Níger, em pleno deserto quente, onde a Areva é um potentado na exploração do urânio por parte de empresas francesas, o AFRICOM possui algumas das principais bases de drones na região e o poder nigerino está reduzido à impotência do agenciamento.

Os conteúdos do AFRICOM – Grupos extremistas se fortalecem na África em meio a aumento de operações militares dos EUA na região – http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40228/grupos+extremistas+se+fortalecem+na+africa+em+meio+a+aumento+de+operacoes+militares+dos+eua+na+regiao.shtml

3- A guerra psicológica do império da hegemonia unipolar em África com esses nutrientes, começa por tratar de dar aos acontecimentos de 2011 na Líbia a sua própria versão (que é também ideológica), conforme por exemplo à Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Muammar_al-Gaddafi)

Para os “filtros”, toda a vida de Kadafi foi à margem do admissível, como se fosse aberrante ou “excêntrica”, sendo essa a linha essencial que é transmitida sugestivamente a quem consulta essa “fábrica”:

… “Em sua época de estudante, Gaddafi adotou as ideologias do nacionalismo árabe e do socialismo árabe, pois era fortemente influenciado por Gamal Abdel Nasser.

Durante o início da década de 1970, Gaddafi formulou sua própria abordagem do nacionalismo e do socialismo árabe, conhecida como Terceira Teoria Internacional, que foi descrita como uma combinação de socialismo utópico, nacionalismo árabe e terceiro-mundismo, que eram teorias que estavam em voga na época.

Sua nova teoria foi consolidada por meio do Livro Verde, no qual ele pretendeu explicar a estrutura da sociedade ideal e defendeu a unificação do mundo árabe em um único estado-nação.

Ele descreveu sua abordagem para a economia como socialismo islâmico, embora outros biógrafos sustentem que o socialismo de Kadafi tinha um tom curiosamente marxista, Gaddafi via seu Regime das massas socialista como um modelo que o mundo árabe, o mundo islâmico e os países não-alinhados deveriam seguir.

Sua visão de mundo foi moldada pela sua experiência de vida, ou seja, a sua islâmica, sua educação beduína, e seu desgosto com as ações de colonizadores europeus na Líbia. Ele acreditava que estava cumprindo uma missão divina e que era um instrumento de Alá, razão pela qual supunha que qualquer ação para atingir seus objetivos seria legítima, não importando os custos”

No Wikipedia não há uma palavra de análise histórica, antropológica e sócio-política que indicie a capacidades da trajectória de Kadafi enquanto um dirigente líbio vocacionado desde logo para alterar profundamente para melhor a situação do seu povo e assumir em África um papel alternativo progressista em relação às imensas vulnerabilidades africanas.

É por exemplo Thierry Meyssan que recentemente aborda esse tema (http://www.voltairenet.org/article201397.html), quando num artigo bem estruturado e aberto à compreensão e à lógica dos acontecimentos com os olhos de África (A Líbia segundo a ONU e a dura realidade”) relembra a história da Líbia:

A Líbia existe apenas há 67 anos. Por altura da queda do fascismo, e do fim da Segunda Guerra Mundial, esta colónia italiana foi ocupada pelos britânicos (na Tripolitânia e na Cirenaica) e pelos franceses (em Fezzan, que eles dividiram e ligaram administrativamente às suas colónias da Argélia e da Tunísia).

Londres favoreceu a emergência de uma monarquia controlada a partir da Arábia Saudita, a dinastia dos Senussis, que reinou sobre o país desde a independência, em 1951. De religião wahhabi, ela mantêm o novo Estado num obscurantismo total, promovendo, ao mesmo tempo, os interesses económicos e militares anglo-saxónicos.

Ela foi derrubada, em 1969, por um grupo de oficiais que proclamou a verdadeira independência e colocou na porta de saída as Forças Estrangeiras. No plano político interno, Muammar Kadhafi redigiu, em 1975, um programa, o Livro Verde, no qual garantiu à população do deserto ir satisfazer os seus principais sonhos. Por exemplo, enquanto cada beduíno ambicionava ter a sua própria tenda e o seu camelo, ele promete a cada família um apartamento gratuito e um carro. A Jamahiriya Árabe Líbia oferece igualmente a água, educação e a saúde gratuitas. Progressivamente, a população nómada do deserto sedentariza-se junto à costa, mas os laços de cada família com a sua tribo de origem permaneceram mais importantes que as relações de vizinhança. Instituições nacionais foram criadas, inspiradas nas experiências dos falanstérios dos socialistas utópicos do século XIX. Elas estabeleceram uma democracia directa em coexistência com as antigas estruturas tribais. Assim, as decisões importantes eram primeiro apresentadas à Assembleia Consultiva das Tribos antes de serem deliberadas pelo Congresso Geral do Povo (Assembleia Nacional). No plano internacional, Kadhafi dedicou-se a resolver o conflito secular entre os Africanos, árabes e negros. Ele pôs fim à escravatura (escravidão-br) e utilizou uma grande parte do dinheiro do petróleo para ajudar ao desenvolvimento dos países subsarianos, especialmente do Mali. A sua actividade acordou os Ocidentais, que começaram, então, políticas de ajuda ao desenvolvimento do continente.

No entanto, apesar dos progressos conseguidos, trinta anos de Jamahiriya não bastaram para transformar esta Arábia Saudita africana numa sociedade laica moderna”

É evidente que foram os algozes de Kadafi que assim o quiseram e fizeram para que o caos, o terrorismo e a desagregação decorrente das contingências disponíveis, viessem a justificar o carácter de intervenção, ingerência e manipulação do AFRICOM, dos seus “associados” (antigas potências coloniais e membros da NATO) e dos agenciamentos dos frágeis estados africanos, sobretudo os da África do Oeste e do Sahel!

4- Assim o quiseram e a partir daí, instalado o caos, o terrorismo e a desagregação por todo o Sahel até ao Lago Chade, às bacias do Congo, do Nilo e do Zambeze, assim como às imediações dos Grandes Lagos, as manipulações dialéticas do império da hegemonia unipolar em África, tiram partido de outra contradição que se nutre de tensões decorrentes da incessante busca de espaço vital que faz deslocar migrações cada vez mais numerosas das imensas regiões dos maiores desertos quentes do globo, não só em direcção ao Mediterrâneo (para alcançar a Europa), mas também para alcançar o espaço vital rico em água interior, a sul, tendo no horizonte a África Austral.

O AFRICOM corteja a África do Sul – http://www.africom.mil/media-room/article/30854/ny-national-guard-commander-senior-enlisted-leader-visit-south-african-military-academy-students

O AQMI, o Boko Haram, as milícias radicalizadas na República Centro Africana, actuam sobre a Mauritânia, o Mali, o Níger, a Nigéria, o Chade, os Camarões, a República Centro Africana, tiram partido dessas migrações e da desagregação artificiosa do Sudão, esvaído não só em convulsões étnicas e regionais, mas também arregimentado ultimamente para fazer parte da “coligação arábica” no Iémen.

Dessa forma, quer o AFRICOM, quer a França do “pré carré”, ajustam suas ideologias, ingerências, manipulações e práticas interventivas de inteligência militar, aos termos dos argumentos que promovem os moldes da nova guerra psicológica em África!

Num artigo publicado no Opera Mundi (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40228/grupos+extremistas+se+fortalecem+na+africa+em+meio+a+aumento+de+operacoes+militares+dos+eua+na+regiao.shtml), o inventário estatístico das acções do AFRICOM, fundamentadas pelos termos da nova guerra psicológica resume-se assim:

Por anos, o Exército norte-americano insistiu publicamente que seus esforços na África eram insignificantes, deixando a população dos EUA e os próprios africanos sem consciência sobre o tamanho real, escala e escopo de suas operações no continente. Porta-vozes e generais do Africom têm alegado repetidas vezes que se trata apenas de uma leve ação no continente. Eles alegam ter apenas uma base na África: Camp Lemonier, no Djibouti. Eles não gostam de falar sobre operações militares. Eles somente fornecem informações sobre uma parte de seus exercícios de treinamento. Eles se recusam a divulgar os locais onde as tropas estão baseadas ou mesmo o número dos países envolvidos.

Durante uma entrevista, um porta-voz do Africom uma vez expressou que somente enumerar quantas ações o comando tem na África seria oferecer uma imagem distorcida dos esforços dos EUA no continente. A portas fechadas, no entanto, oficiais do Africom têm afirmado repetidamente que o continente é um campo de batalha norte-americano e que eles já estão envolvidos em uma guerra factual.

De acordo com cifras divulgadas pelo Comando Militar dos EUA na África, o escopo dessa guerra cresceu de forma dramática em 2014. Em sua Declaração de Operações, o Africom relata que conduziu 68 ações no ano passado, representando um aumento em relação às 55 do ano anterior. Esse número inclui as missões de auxílio às tropas francesas e intervenções africanas no Mali e na República Centro-Africana; a operação Observant Compass, um esforço para desmantelar o que resta do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês) na África Central; e a United Assistance, o envio de militares para combater a crise de ebola na África Ocidental.

No ano passado, foram realizados exercícios de militares norte-americanos em conjunto com exércitos africanos em países como Marrocos, Senegal, Camarões e Malaui. O Africom também realizou exercícios de segurança marítima, incluindo operações no Golfo da Guiné e na costa do Senegal, e três semanas de cenários de treinamento de segurança marítima, como parte da operação Phoenix Express 2014, com marinheiros de vários países, incluindo a Argélia, a Itália, a Líbia, o Malta, o Marrocos, a Tunísia e a Turquia.

O número de atividades cooperativas de segurança passou de 481, em 2013, para 595, no ano passado. Tais esforços incluíram treinamento militar em um programa de parceria entre Estados, que alia forças militares africanas a unidades da Guarda Nacional dos EUA e à Assistência e Treinamento para Operações de Contingência na África (ACOTA, na sigla em inglês), iniciativa financiada pelo Departamento de Estado dos EUA através da qual conselheiros militares norte-americanos e mentores providenciam equipamentos e treinamento para tropas africanas.

Em 2013, o total de ações norte-americanas combinadas no continente alcançou 546, uma média de mais de uma missão por dia. No ano passado, esse número saltou para 674. Em outras palavras, as tropas norte-americanas conduziram quase duas operações, exercícios ou atividades – de ataques de drones a instruções de contrainsurgência, coleta de inteligência e treinamento de pontaria – em algum lugar no continente a cada dia de 2014. Isso representa um significativo aumento das 172 missões, atividades, programas e exercícios que o Africom herdou de outros comandos quando começou suas operações em 2008”.

A persistência deste tipo de cenários revela que, mesmo que a Europa venha a pôr em causa a vassalagem em relação aos Estados Unidos, dificilmente isso será reflectido pelo comportamento europeu em relação a África, pelo que é necessário por parte dos estados africanos, uma maior clarividência no diálogo com os europeus, algo que siga o exemplo muito recente de Angola, com a muito oportuna visita do Presidente Joao Lourenço a França e à Bélgica.

Com a eclosão da ameaça radical wahhabita no norte de Moçambique (pode-se avaliar aqui: https://www.publico.pt/2018/06/10/mundo/noticia/de-onde-apareceu-o-extremismo-islamico-que-assola-mocambique-1833590), depois dessa ameaça ter sido “destravada” em 2011 na Líbia com o fim da era Kadafi, não nos admiraria começar a ver os instrumentos dessa ingerência a criarem condições de penetração com o rótulo de “parcerias” na África Austral, tentando avassalar as elites de todos estados africanos que compõem o espaço da SADC e isso apesar deles estarem apostados em políticas de paz… ou precisamente por causa disso!…


*Martinho Junior es articulista angoleño y colabora habitualmente en el medio “Página Global”

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